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O PAPEL DO PSICÓLOGO NA MUDANÇA DAS ORGANIZAÇÕES
Marta Echenique
[...] antiquíssima sabedoria consiste em atribuir às forças do grupo um papel decisivo na estruturação da vida social. (Moreno, 1993)
Constantes e intensas mudanças no mundo estão provocando revisões em todos os setores da vida humana, com significativas transformações na forma de pensar as relações e as estruturas organizacionais.
As inovações tecnológicas e as diferenças culturais vividas no mundo globalizado provocam o surgimento de novas necessidades, insatisfação com velhas formas de pensamento e busca de novos estilos de ação e/ou gestão. A aceleração das transformações mexe com as empresas, traz a consciência da urgência de adaptação à nova realidade, ao mesmo tempo em que deixa em seu rastro incertezas e contradições - a fase de transição é desgastante, leva tempo, traz insegurança e causa inquietação nas pessoas envolvidas.
Muito se fala da necessidade de novos modelos de gestão empresarial, mas sabemos que há grande distância entre o discurso e a prática. Se não há dúvidas sobre a existência de uma vontade consciente de mudança, percebe-se também a presença de entraves inconscientes que a impedem.
Surge então a pergunta: O que tranca ou dificulta a implantação dos novos modelos? O que se pode fazer a respeito?
Para responder a estas perguntas, vamos desenvolver duas linhas de pensamento: a teoria sistêmica e a metodologia sociopsicodramática de Jacob Moreno para intervenção transformadora em grupos.
Sistema é um conjunto de unidades relacionadas de maneira funcional em que as partes reagem como um todo, buscando sempre um estado de melhor equilíbrio. As partes componentes, ou subsistemas, se inter-relacionam mas não se somam, ou seja, o todo é maior que as partes.
A teoria sistêmica possibilita uma visão do universo que vai desde micro-sistemas até macro-sistemas. Neste enfoque, o homem pode ser visto como um sistema composto por subsistemas (como o sistema ósseo, muscular, circulatório, etc.) que, por sua vez, faz parte de sistemas maiores como a família, seu grupo de amigos, o local de trabalho, a comunidade, o país e outros.
- Os sistemas agem segundo os seguintes princípios:
- princípio de totalidade
- princípio de auto-regulação
- princípio de limites.
Segundo o princípio de totalidade, os elementos componentes de um sistema são subsistemas que reagem conjuntamente como um todo.
Segundo o princípio de auto-regulação, os sistemas estão em constante movimento, regulando-se para não se romper e para manter a identidade.
Segundo o princípio de limites, os sistemas e os subsistemas separam-se por fronteiras ou limites que variam da extrema rigidez à flexibilidade, isto é, de pouca ou quase nenhuma permeabilidade e péssima comunicação a uma boa permeabilidade e comunicação eficaz.
Os sistemas encontram seu ponto de equilíbrio pela harmonização da interdependência de seus subsistemas. O conflito representa uma divergência interna do sistema, onde um subsistema busca seu melhor equilíbrio ignorando a interdependência dos elementos do sistema maior.
Os conflitos produzem desconforto e põem o sistema em um estado de disponibilidade para a mudança, na busca da reposição do equilíbrio. Ou seja, a evolução de um sistema se dá pela oscilação pendular entre equilíbrio/desequilíbrio.
Portanto, os conflitos podem ser muito positivos no aperfeiçoamento dos sistemas, sua presença é estímulo ao crescimento e promove a liberdade do homem para buscar alternativas criativas aos impasses.
A alteração de um elemento ou de um subsistema ressoará em todo o sistema, que poderá ou tenderá a sofrer alterações. Ocorrem pressões inter e intra-sistêmicas, tanto para produzir mudanças como para evitá-las.
A evitação tende a ocorrer em sistemas rígidos.
Nesses sistemas, uma ou algumas estrutura(s) relacional(is) colaboram na manutenção do status quo. Podem até mesmo, aparentemente, assumir a função de facilitadoras, porém, agem inconscientemente no sentido de perpetuar a estrutura vigente. Com intervenções e movimentos barulhentos, que são apenas pseudomudanças, mantêm o sistema enclausurado e estático, de tal maneira que, após as pressões e descompressões, todos retomem suas conhecidas funções.
Cada evento ou comportamento está ligado a muitos outros. Pela repetição, vão formando padrões característicos constantes que funcionam para equilibrar ou auto-regular o sistema.
As inter-relações se estabelecem em complexos circuitos circulares que se fecham, interconectados por input e output e fomentam sensações de reconhecimento ou pertencimento aos membros do grupo.
Para preservar estas sensações que promovem bem-estar e segurança, assim como para manter o controle das fronteiras e hierarquias, pode ocorrer um enrigecimento do sistema, onde se investe na transformação e ao mesmo tempo se contra-investe.
A intervenção do psicólogo deve voltar-se para a desestruturação deste padrão, desconstruindo mitos e medos e dando lugar a novos equilíbrios e interações.
Pessoas e organizações agem subsidiadas por conceitos, analogias, metáforas, sistemas de classificação, normas, hierarquias e tecnologias intelectuais incorporadas à máquina social.
Assim, intervir em um sistema requer que se altere a atividade cognitiva.
Os sistemas são coletividades cognitivas que se auto-organizam, se auto-regulam e se transformam pelo envolvimento permanente dos sujeitos que as compõem. Modificam, reinventam ou reafirmam a instituição ao sabor de sua percepção, de seus interesses ou de suas necessidades e, ao mesmo tempo, são afetados pela estrutura da instituição.
A compreensão dos eventos e a forma de raciocinar do grupo tem uma influência direta na construção da história desse grupo. Alterando-se as narrativas, pode-se ressignificar a história e modificar as interações entre os componentes da instituição.
Interações entre homens e coisas são complexas, movidas por projetos, dotadas de sensibilidade, de memória, de reconhecimento, de julgamento; misturam-se subjetividades individuais e subjetividades dos grupos, bem como das instituições.
Mantém-se ou transforma-se a estrutura social pela interação inteligente e emocional das pessoas. Alterar padrões relacionais, nessa interação tão estreita sujeito-sistema, requer a realização de intervenções num sistema ampliado.
Pode-se ampliar o sistema para conter pólos complementares e trabalhar com lideranças estratégicas, tecendo e ampliando redes, de forma a propiciar novos padrões transacionais.
Focalizando as pressões que se intercambiam inter e intra-sistemas, pode-se realizar um trabalho em rede e propiciar um desequilíbrio, a fim de alterar o curso dos acontecimentos.
Jacob Levy Moreno, foi o criador da Socionomia, ciência que estuda o homem como ser em relação, imerso em redes vinculares. Ele propõe a utilização consciente das forças atuantes no grupo e trabalha a trama social submersa e suas intercorrências na vida do homem. Descreve os ritos e conselhos de grupo, desde os mais arcaicos, como formas primitivas de legitimação e de utilização da coesão do grupo, enquanto fonte inconsciente de crescimento.
Mais conhecido como Psicodrama (quando seu foco é a dinâmica subjetiva de um indivíduo) ou Sociodrama (quando focaliza a dinâmica dos grupos e organismos sociais), a metodologia de Moreno utiliza a dramatização, como forma de buscar a verdade através da ação. Estimulando a criatividade e a espontaneidade, longe de trazer soluções aos problemas, legitima-os, acolhendo a diversidade no espaço dramático. A vivência dos conflitos presentes com a incorporação das diferentes narrativas pode transformar seu sentido e abrir brechas para novas oportunidades nas relações.
Todo sistema vivo move-se no viés da tensão. A tensão gera movimento, vida, enquanto o equilíbrio associa-se à estabilidade do sistema. Um sistema altamente estável precisa da intervenção externa para injetar energia e vida no sistema.
Esse é o papel da assessoria psicológica: introduzir desequilíbrio e ajudar o sistema a sustentá-lo, até que possa organizar-se o suficiente para manter a transformação.
Ao contrário de um mero jogo de troca de papéis, a dramatização requer maturidade para promover uma percepção das motivações internas, dúvidas, críticas e receios. Requer alguém que possa, simultaneamente, colocar-se no lugar do outro e gerar uma troca enriquecedora de pessoa a pessoa. E proporciona revitalização, em que cada qual se sente valorizado e ganhador.
Na teoria sistêmica, retroalimentação ou feedback é o processo pelo qual se produzem modificações no sistema, programa ou comportamento, por efeito de respostas à ação do próprio sistema, programa ou comportamento. Os conceitos de sistemas e feedback são fundamentais ao trabalho em rede, tanto na identificação dos circuitos, como no acompanhamento das mudanças ao longo da intervenção. O processo passa pelas seguintes etapas:- aplicação de avaliação que auxilie identificar o estado atual das interligações no sistema;
- identificação de lideranças formais e/ou informais (organograma ou aplicação de teste sociométrico);
- identificação de pontos estratégicos para estabelecer as conexões na rede (que inclui levantamento de focos mantenedores do sistema em questão e sua inclusão direta ou indireta no trabalho);
- desconstrução de mitos, segredos e crenças para construir novo paradigma;
- subsídios, treino e acompanhamento da intervenção até que se configure significativa mudança, com líderes fortalecidos e em condições de dar continuidade ao trabalho;
- ampliação da rede por ressonância ou agilização paralela. Nessa etapa as lideranças ampliam a intervenção em seus campos de ação, quer via coordenadores de suas equipes, quer diretamente. Aproveitam-se os potenciais “ajudadores compulsivos” ou provedores, capacitando-os como orientadores, multiplicadores ou capacitadores;
- reavaliação e re-direcionamento do trabalho.
O acompanhamento não deve ser dissolvido na fase crítica em que se desestabiliza o sistema. É útil criar redes de apoio que ajudem a suportar a instabilidade da transição. Esse suporte pode ser reutilizado pelo sistema em outras fases, quando a assessoria já houver encerrado seus trabalhos.
O método sociopsicodramático é norteador de todo o processo. O trabalho é uma construção coletiva, por meio de técnicas de ação, sociodramas, reuniões com dirigentes, com associados e dirigentes e com parceiros externos, em grupos variados.
Muitos empresários, inseguros quanto ao futuro, procuram fórmulas salvadoras em seminários, treinamentos, livros, programas de consultoria. No entanto, uma vez que os colaboradores sejam estimulados a exercer a espontaneidade e a criatividade, é nos próprios grupos que encontrarão a melhor resposta aos seus problemas. As soluções estão na própria organização. O profissional contratado fará apenas o papel de facilitador, para estimular a visão sistêmica e a explicitação dos vínculos e relações, promovendo o afloramento da sabedoria inconsciente e o surgimento de respostas que já estão no seio do grupo em estado latente.
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Bebeth Fassa
Marta Echenique
Para se pensar sobre o papel do Pai na organização da identidade do/a filho/a, é necessário atentar para o sempre presente jogo de forças, dinâmico e circular, das influências do social sobre o psíquico e vice-versa.
As necessidades de sobrevivência nos primórdios da humanidade levaram o homem a desenvolver seus traços inatos de provedor e protetor ao exagero de predador e dominador e o mundo patriarcal, tendo-se estabelecido justamente sobre estes traços e deles dependendo para sua preservação e desenvolvimento, os maximizou, valorizando tanto mais o homem, quanto mais seus esquemas de ação fossem geradores de poder.
Detentor do poder, o homem torna-se o representante da Lei, responsável pela repressão e controle indispensvel à manutenção desse modelo sócio-cultural, o qual se caracteriza por ter como fundamento macro-organizador o Estado e, como fundamento micro-organizador, a família, sendo que estes dois elementos refletem um ao outro.
Assim, enquanto no Estado o chefe representa o poder organizador, simbolicamente paterno, de quem o povo espera salvação e controle, ou seja, um papel de autoridade onisciente, na família, o pai representa esta mesma autoridade, entronizado na figura de “Pai-Lei”.
A expectativa social e a estrutura familiar que colocam o pai como lei restritiva e punidora, que educa pela repressão, impondo limites desde uma posição fria e distante, oferecem à criança apenas meio pai, deixando na sombra seus traços protetores e estimulantes do desabrochar da personalidade em seus aspectos sócio-afetivos. Sua natural função de cunha na re1ação mãe-filho, é valorizada apenas no seu aspecto restritivo de interdito à fusão original e ao prazer indiscriminado e pouco considerada em seu aspecto ampliador das vivências infantis.
A evolução histórica, que desencadeia a crítica de alguns segmentos sociais ao autoritarismo, à excessiva ingerência do Estado na vida privada e à repressão como elemento necessário na organizaçao política, leva também ao questionamento dos papéis e atribuições de cada um na família e no mundo.
O papel do homem, de pai e chefe de família, exercido com o amparo da autoridade e dignidade próprias a todo chefe, é questionado justamente em sua representação de Pai-Lei, identificada a Lei com domínio e repressão e, no desejo de alijar os aspectos agressivos e impositivos da autoridade, incorre-se no exagero de desvirtuar os traços de força, proteção e modelo de assertividade que o pai provê à criança.
Valorizando-se apenas as características fusionais e a aceitação feminina, negam-se os aspectos contenedores e amorosos próprios à virilidade, o que reduz a importância da figura masculina ao papel de pai biológico. No entanto, a hombridade é tão indispensável para a evolução harmônica e saudável do indivíduo quanto sempre foi para a estruturação do mundo.
A criança nasce profundamente unida à mãe e a vivência fusional deste momento é tão intensamente prazeirosa para ambas que só a entrada de uma nova figura pode ocasionar a necessária ruptura desta simbiose, ruptura esta que permitirá à criança a construção da própria identidade, dando-se conta de si como ser único, individualizado.
É ao pai que cabe oferecer esta oportunidade de ruptura e de nova vinculação e, se é verdade que pela triangulação ele impõe limites e frustra, também é verdade que com isso ele alarga o círculo afetivo da criança, abre os seus olhos para o principio de realidade e desenvolve o seu sentido de pertenência, pois só podemos nos incluir em um grupo se somos individualizados dentro dele.
É o pai que oportuniza à criança perceber o outro como outro e não como continuidade de si mesmo, viver os primeiros confrontos de desejos, estruturar a coragem de ser e de afrontar, aprender a questionar, ceder ou não ceder, medir consequências.
A tolerância materna não permite que a criança experimente as consequências de suas rusgas, enquanto a exigência paterna cobra reciprocidade de comportamento, ajudando na definição das fronteiras pessoais.
Nos aspectos míticos que organizam culturalmente a humanidade, o pai corresponde ao mito do herói que viaja pelo mundo, transformando-o e organizando-o; a mãe está relacionada à deusa, continente complacente e aceitador, sempre presente e disponível.
Isso não deve levar à apressada dispensa da presença e do afeto paternos, como elementos importantes no bom desenvolvimento infantil, mas podemos pensar que a ausência concreta do pai não é tão prejudicial à criança quanto a ausência da mãe.
Como representante na família do mundo extra-lar, o pai atua como ponte entre este e aquela, ofertando à criança proteção, confirmação e modelos de ação no mundo, que funcionam como vetores estruturadores da auto-confiança em relação à sociedade.
É através do nome, da imagem e da representatividade social do pai que o filho constrói o seu nicho existencial na organização sócio-política.
Cabe à mãe, que também usufrui dessa representatividade, explicar aos filhos o que o pai faz, simbolizar a ausência paterna como dedicação e amor, articulando seu esforço externo com os ganhos e benefícios familiares.
O pai pode não estar presente em pessoa, mas sua figura ocupa um espaço, uma vez que o filho saiba que ele esta fora justamente por força de sua expressão social. A sua ausência dá a dimensão de sua importância e funciona como uma presença simbólica.
O bom pai é o herói admirado, dedicado provedor, carinhoso definidor, que oportuniza à criança os parâmetros de identificação social, com senso de pertencer a uma linhagem - individualizado, mas pertencente. A boa mãe é aquela que por sua boa relação com o pai, admirando-o e valorizando-o, o mantém presente, enquanto ela mesma desempenha suas funções maternas de fornecimento da identidade afetiva, pela disponibilidade e pelo aconchego.
Claro está que o pai como a mãe serão tanto melhores em seus desempenhos quanto mais completos forem como seres humanos; ou seja, um homem que tenha bem desenvolvidos seus aspectos femininos, integrados harmoniosamente aos princípios viris e uma mulher que também integre às características femininas traços masculinos potentes e atuantes no mundo. Como seres humanos mais completos, eles exercerão seus papéis de forma mais flexível, aceitando sem conflitos a simbologia e as exigências profundas dos mesmos.
Tanto quanto a materna, a figura paterna é substrato da organização emocional. Pela frustração e pela restrição o pai ajuda a criança a delimitar a sua identidade e pela proteção e pela confiança ele a confirma no desenvolvimento de seus papéis relacionais; por estas vias a criança aprende a lidar com os limites sociais.
A ausência da função paterna de ruptura e socialização, com o correspondente exagero por parte da mãe na complementação dos aspectos fusionais da criança, dificultam e podem até mesmo chegar a bloquear a evolução emocional e cognitiva.
Como consequências desta ausência, encontramos uma variada sintomatologia: crianças com vocabulário e articulação infantis, atitudes afetivas regressivas, distúrbios de sono, dificuldade de abandonar o bico e a madeira, excessivo apego às figuras femininas, não só à mãe, mas à avó, à babá, à professora, com quem estabelecem uma relação ambivalente e pegajosa, sem consideraço com o outro.
Na versão adulta, tais dificuldades levam à impossibilidade de postergar e de medir as consequências de sua busca prazeirosa, o que se aproxima dos distúrbios de conduta e da psicopatia.
A valorização da mitologia paterna, completada pela concreta presença carinhosa de um homem, resulta na possibilidade de triangulação saudável, tanto mais satisfatória quanto mais o terceiro for valorizado pela mãe, enquanto adulto confirmador e protetor, amado por ela em seus traços viris.
A percepção inconsciente do sentido bio-psicológico da relação, por parte da criança, facilita que esta integre os aspectos naturais e sociais e, ainda, articulando as inserções da díade mãe-pai e seu significado neste triângulo, ela realiza sua primeira abstração, apreendendo, visceralmente, seu lugar na família.
Baixar artigo em PDFOBSERVAÇÃO FENOMENOLÓGICA DE RITUAIS INDÍGENAS DO ALTO-XINGU - O PSICODRAMA "IN NATURA"
Marta Echenique
Há alguns anos atrás, tive a incomum oportunidade de passar uma temporada no Parque Nacional do Xingu, convivendo intimamente com populações indígenas ali localizadas.
A vida tribal e suas características especiais de harmonia e equilíbrio me levaram a atentar para os processos dinâmicos e estabilizadores que concorrem para o ajustamento psicossocial da cultura em questão.
Os fenômenos observados se impuseram por si mesmo, mostrando-se como uma resposta psicodramática pura, no contexto da própria vida, sem contaminação teórica, de tal forma e com tal intensidade, que me propus analisar, a partir de conceitos teóricos psicodramáticos, alguns ritos e cerimônias das tribos localizadas naquela reserva indígena, considerando as experiências ritualísticas dos grupos em questão, bem como seu modo de ser e de viver, uma resposta cultural e adaptativa na solução de conflitos psicossociais.
As festividades ou cerimoniais xinguanos apresentam conteúdos dinâmicos e dramáticos que parecem contribuir para um processo equilibrador de busca de coerência entre o sujeito e o meio ambiente e entre os diversos grupos étnicos, em convívio cultural. Podem ser consideradas, dentro da distinção feita por Moreno, como “Terapia de Grupo”, segundo o qual utiliza-se esta classificação quando os efeitos terapêuticos são secundários, decorrentes de atividades primárias do grupo, sem o consentimento explícito dos membros e sem plano científico. (Em contraposição, “psicoterapia de grupo” tem como meta única e imediata a saúde do grupo e de seus membros, através de métodos científicos.) (1, pág. 78).
Chamam a atenção, no contato com as referidas populações indígenas, as características psicológicas dos indivíduos que transmitem a impressão de cordialidade, satisfação, adequação e equilíbrio. Também importante ponto observado é a convivência pacifica inter-tribal, fato raro entre os indígenas brasileiros que muito favoreceu sua sobrevivência como grupo, mesmo após o desagregador contato com os brancos. As observações e dados colhidos por mim foram confirmados e desenvolvidos posteriormente em consultas às importantes fontes de informação constituídas pelas obras de Orlando e Cláudio Villas Boas e Darcy Ribeiro (2 e 3) o que me possibilita transmitir aqui uma síntese histórica e descritiva da maneira de viver do Alto-Xingu.
O Parque Nacional do Xingu constitui uma reserva federal que visa à proteção da flora e fauna naturais da região e, sobretudo, assistir às tribos indígenas ali localizadas e defendê-las de contatos prematuros ou nocivos causados pelas frentes de expansão da sociedade nacional.
Quando me refiro aos povos do Alto-Xingu, estou seguindo os irmãos Villas Boas e falando a respeito de onze grupos tribais localizados no sul do Parque, zona irrigada pelos rios Kuluene, Ronuro, Batovi e Kurizevo, formadores do Xingu. Tais grupos conservam ainda praticamente inalterado o sistema de organização e associação de elementos constitutivos que os distinguiam na época de seu descobrimento.
Há entre eles, além de uma língua isolada, representantes de três das quatro principais famílias linguísticas brasileiras: Tupi, Karib, Aruak e Jê (A última não está representada.)
Essas tribos se concentraram há séculos na área, provavelmente fugindo ao choque com os brancos desde o período colonial e com outras tribos, também por estes deslocadas. Isoladas na região, estiveram a salvo de contatos com a civilização até o fim do século passado. Embora falando idiomas diferentes, se entrelaçaram de tal forma através de intenso intercâmbio, que hoje revelam, no seu conjunto, grande uniformidade cultural, ainda que conservando a independência e as características étnicas de cada tribo. Há inúmeras correspondências e relações de toda natureza que igualam e vinculam os grupos entre si: práticas mágicas, tradições mítico-religiosas, casamentos intertribais, relações comerciais. Graças a essa homogeneidade os índios xinguanos desenvolveram uma espécie de "mercado comum", no qual cada tribo propõe a troca de produtos de sua manufatura ou produção, que constitui sua "área preferencial" de comércio. Obrigados a refugiar-se na região, acabaram aprendendo a conviver e aplainar diferenças, podendo com isso sobreviver melhor. Ao criar alianças na luta contra tribos hostis, aprenderam a trocar auxílio, num instintivo reconhecimento da necessidade de defesa.
Foram criadas regras culturalmente prescritas para disciplinar os contatos e reuniões periodicamente organizadas para comércio. Como dizem textualmente os irmãos Villas Boas, “as tribos amigas do Alto-Xingu formam uma legitima “sociedade de nações”, relativamente mais perfeita que sua congênere civilizada. é que, ao contrário daquela, na sociedade xinguana não há preponderância dos mais fortes, nem super alianças controladoras, nem submissão dos mais fracos. Há um perfeito equilíbrio e respeito entre os seus co-participantes, sem que o potencial humano e a capacidade produtiva sejam levados em conta. Vivem sob um regime de mútua e benévola dependência.” (2, pág. 20).
Entretanto, o passado histórico dos xinguanos revela tumultos, invasões e choques internos entre os grupos em fase de acomodação. Muito tempo se passou até a fusão cultural de tribos tão diferentes apresentar seus bons resultados.
Interessa-nos justamente entender a transformação, os mecanismos que reduziram as tensões dissociativas, oportunizando a integração e a mudança. Parece evidente que tais grupos encontraram uma solução de convivência que era necessária e imprescindível para sua sobrevivência dentro das circunstâncias vividas. Por outro lado, essa mesma convivência é dificultada por séculos de condicionamento, que estruturaram uma tribo como entidade autônoma, cujas atividades são, em sua maior parte, destinadas ao preparo e ao exercício da guerra. Os padrões de virilidade são relacionados a atitudes belicosas: a guerra é o destino dos homens e a mais alta fonte de prestígio. é preciso ser herói para atingir a vida de além-túmulo. Os valores que movem os homens aos esforços mais árduos, que os motivam às atividades mais penosas estão ligados à guerra. Portanto. para deixar de combater, é necessária uma mudança de valores, uma redefinição, um crescimento. Uma elaboração, portanto.
Já me referi ao conteúdo dinâmico e dramático dos cerimoniais xinguanos. Diretamente relacionado ao exposto acima, o "Javari" constitui um jogo ou ritual esportivo realizado periodicamente entre duas tribos de cada vez. Sua finalidade consciente é de caráter recreativo, porém, se nos detivermos observando-o poderemos considerá-lo como a síntese cultural dos processos elaborativos de integração ao novo estado (entendendo por novo estado a convivência pacífica).
Vejamos como se desenvolve a festa cerimonial do Javari: o jogo em si consiste em atirar uma flecha rombuda e recoberta de cera por meio de um propulsor, visando atingir a coxa do adversário, que se defende com um feixe de varas, procurando se esquivar do projétil sem tirar os pés do chão.
Intensos preparativos em que as mulheres fabricam farinha e massa para beijus e os homens fazem flechas e renovam a pintura dos propulsores são acompanhados de vigorosos treinos diários para a disputa que se aproxima. A tribo organizadora convida outra tribo, vizinha, para participar da competição.
O período preparatório demora vários dias, incluindo cantos, danças e treinamento intensivo, que se torna mais elaborado à medida que se aproxima a data da testa. Numa etapa final, um grupo de jovens da aldeia procede como se fosse o grupo adversário, competindo com os anfitriões. Atiram dardos sobre um “calunga” (boneco) de palha. Encerrado o treinamento, são enviados embaixadores ou mensageiros, os “pareát”, para levar o convite à tribo competidora.
Por ocasião da chegada desta, alguns dias depois, os hóspedes são recebidos com complicados rituais de cortesia, sendo supridos de alimentos e água fresca pelas mulheres da aldeia.
Seguem-se cantos e danças dos visitantes, demonstrações de tiro ao calunga e defumação de dardos pelos pajés. As duas equipes alternam-se nas exibições de virtuosismo, provocando-se verbalmente e chegando mesmo a agressões verbais.
O ponto alto da competição é uma serie de disputas individuais, provocadas por desafio de elementos de uma equipe a representantes da equipe contrária. Os arremessos se caracterizam pela violência do golpe, a ponto de quebrar as varas do feixe que serve de escudo. Os duelos são "para valer", os participantes se empenham a fundo.
Encerradas as disputas, todos juntos dedicam-se a cantorias e danças, como confraternização. é esta a primeira vez que as duas tribos dançam e cantam juntas, desde o inicio da festa.
Durante os treinos, e sobretudo no último dia, os índios pintam o corpo e adornam-se com os mais vistosos e variados enfeites de penas, cintos e braçadeiras de couro de onça e colares de contas e conchas.
Não me parece exagero afirmar que o cerimonial descrito constitui um sociodrama, no qual são trabalhadas as relações entre os dois grupos e resolvidas as situações de rivalidade e hostilidade, através da dramatização das mesmas.
O período preparatório corresponde à etapa de aquecimento, o qual vai se tornando cada vez mais especifico, à medida que a festa se aproxima.
A dramatização se caracteriza pelos papéis sociodramáticos de competidores, assumidos pelo grupo. Há, em verdade, um comprometimento afetivo e vivencial, uma liberação de energia e ação, que se traduz num tratamento terapêutico coletivo.
Moreno utiliza o termo “acting out” para designar o processo de concretização em atos dos pensamentos e das fantasias. Através do "acting out", o protagonista cria no cenário aspectos do seu mundo interior resultantes de suas experiências passadas e atuais, bem como seus sonhos e fantasias.” (4. pág. 45).
É uma atuação terapêutica, em que situações conflitivas são expostas, encaradas e assumidas, em ambiente controlado, como caminho para a solução das mesmas, ao invés da atuação irracional na própria vida. Os protagonistas vivem um encontro com as próprias emoções, objetivando no comportamento hostil a rivalidade e a agressividade que as circunstâncias sociais não Ihes permitem exprimir e cuja existência não reconhecem totalmente no plano consciente.
Moreno diz que: "um dos problemas do tratamento psicodramático consiste em induzir o sujeito a uma representação adequada das dimensões vividas e não vividas de seu mundo privado". (5. pág. 42). No caso, a prescrição cerimonial oportuniza a representação e o conseqüente envolvimento emocional e ação terapêutica.
Rojas Bermudez afirma que “Catarse de Integração é o resultado final de uma série de processos, isolados no seu início, que confluem em determinado momento, inter-relacionando-se e produzindo um resultado final comum, diferente de cada uma das dificuldades parciais”. Ainda: “Na Catarse de Integração, o que sai é o próprio paciente e, ao sair de algo que o continha, realiza seu EU, expressa-se, estabelece contato com os demais integrantes da situação psicodramática, na experiência vivida em comum”.
Diz Moreno: “A Catarse de Integração é engendrada pela visão de um novo universo e pela possibilidade de um novo crescimento”. (4. pág. 42 e 43).
Penso que, na cerimônia relatada, houve a vivência de uma experiência de reciprocidade e mutualidade, um contato profundo na vivência de emoções reprimidas e uma mudança de qualidade nos grupos participantes. Os diversos procedimentos preparatórios culminaram na apresentação simbólica das situações e relações conflitivas e, ainda que “permanecendo fora da realidade” foi possível a realização catártica nos níveis verbal e corporal, possibilitando a objetivação das fantasias e dos papéis e relações não aceitos. Tornou-se possível, então, viver a confraternização e assumir os novos valores que a mesma exige. Toda a tribo colhe os benefícios proporcionados pelo processo catártico, pois contribuiu para o clímax do mesmo, tendo entrado no seu preparo “múltiplos esforços parciais realizados em comum”. (4 pág. 43).
A repetição do Javari não obedece a calendário fixo ou previsões cronológicas: parece antes corresponder a uma necessidade de reforço da solução encontrada, para a sobrevivência e sustentação da estrutura tribal, isto é, à necessidade de manter um bom nível de integração, tanto individual quanto social, dentro do contexto cultural.
Segundo Moreno, os estados inconscientes de dois ou vários indivíduos estão entrelaçados num sistema de estados co-inconscientes, os quais “jogam um grande papel na vida de pessoas intimamente associadas ou grupos estreitamente vinculados”. “Tais estados são propriedade comum do grupo, experimentados e produzidos conjuntamente, e, portanto, só podem ser reproduzidos e representados conjuntamente, num esforço combinado”. “São a matriz da qual deriva a inspiração e conhecimento de seus participantes.” (5. pág. VIII e IX).
A partir do exposto, se pode concluir que a carência, vivida inconscientemente por vários indivíduos, de papéis de afirmação viril e guerreira, em níveis tanto individual quanto tribal, cria um estado co-inconsciente de tensão, frustração e desintegração que busca superar-se na inspiração e motivação, sentidas pelo grupo, sem outras razões lógicas, de organizar um novo Javari.
Vivendo conjuntamente os papéis reprimidos e exprimindo as emoções correspondentes, os conflitos comuns do grupo são trabalhados através de esforços combinados, de maneira mais profunda e mais completa do que as circunstâncias normais na vida o permitiriam.
O encontro de soluções de grupo é grandemente favorecido pela vida comunitária a que estão acostumados, dentro de uma economia baseada na cooperação de todos os membros para a subsistência tribal: cada indivíduo é habituado desde a infância à interdependência no trabalho, num plano de igualdade e cooperação, com as mesmos direitos no acesso às fontes de subsistência oferecidas pela natureza ou criadas pelo trabalho coletivo. As atividades comuns e a reciprocidade de auxilio criam vínculos humanos dignificadores, que buscam o encontro no relacionamento interpessoal e a auto-valorização e satisfação emocional no nível individual.
Enquanto livre de influências alienígenas e contatos desagregadores com a influência civilizadora, as instituições culturais indígenas oferecem condições de realização pessoal e adaptação sem conflito, proporcionando ao indivíduo papéis nítidos e situações sociais definidas, com a possibilidade, sempre presente, de colocar espontaneidade e criatividade pessoal a serviço dos papéis assumidos.
Como afirma Bermudez, “o sentimento de realização pessoal surge da concretização da capacidade criadora através dos papéis sociais, isto é, quando ao estereótipo social são dadas tais características que levam o indivíduo a identificar-se com ele e a sentí-lo como uma criação pessoal.” (4, pág. 51)
Com efeito, mantendo seu conteúdo existencial muito próximo às próprias fontes e origens da vida, a estrutura tribal valoriza o indivíduo como um fim em si, dependendo seu prestigio e sua posição social do virtuosismo e criatividade que demonstre no desempenho de seus papéis. Nas tarefas produtivas da coletividade, como no fabrico de seus próprios objetos de uso, desde as armas até os adornos pessoais e utensílios domésticos, o índio xinguano preocupa-se com a perfeição de suas realizações. Toda a sua obra possui um cunho pessoal, é uma afirmação de si mesmo, de sua identidade única, de seu talento inventivo. Chama atenção a busca de beleza e de manifestação estética em todos os setores do dia-a-dia, sobretudo na confecção artesanal, na elaboração das pinturas corporais e na pesquisa incessante de novos sons com os instrumentos musicais ao seu alcance.
Quando aparecem dificuldades em satisfazer as necessidades individuais dentro dos padrões culturais, surgem os conflitos. Tais dificuldades podem advir da emergência simultânea de muitas novas necessidades, provavelmente por influências externas, às quais a cultura ainda não teve tempo ou condições de se adaptar, (este é o caso das tribos "civilizadas"), ou por fatores internos institucionais que restringem a realização pessoal de alguns elementos. A cultura sobrevive na medida em que se mantém criativa na busca de soluções, segundo referências ideológicas coerentes, impelindo seus membros a desempenhar os papeis psicossociais existentes e criar outros, pela emergência de novos projetos que oportunizem a atualização de potencialidades.
Os cerimoniais e ritos xinguanos refletem soluções espontâneas, encontradas intuitivamente na busca do equilíbrio individual e social. Falam diretamente de conflitos humanos imediatos com grande vivência de conteúdo.
Outro exemplo interessante refere-se às dificuldades de relacionamento entre os sexos, que colocam a mulher em posição desvantajosa. A divisão de trabalho, baseada em atribuições perfeitamente delimitadas de acordo com o sexo cria a inferiorização da mulher na comunidade. As tarefas masculinas estão tradicionalmente eivadas de prestigio, como uma herança histórica de suas funções guerreiras em defesa da tribo e de provedor através da caça e da pesca.
As mulheres trabalham muito e são tão importantes quanto os homens na organização econômica tribal, entretanto estes é que têm prestigio e poder decisório sobre os assuntos da comunidade e sobre as resoluções familiares.
Como os papéis psicossociais de cada sexo são assumidos e vividos desde muito cedo, segundo modelos coerentes e constantes, e as aspirações pessoais correspondem às expectativas do grupo, as mulheres estão acomodadas no desempenho dos papéis que lhes competem e nem lhes passa pela cabeça que possam não estar satisfeitas com os mesmos, ou que haja possibilidades de modificar a situação. Entretanto, a ausência de reciprocidade e de igualdade no relacionamento cria suscetibilidades e tensões emocionais entre os sexos, que precisam ser descarregadas e resolvidas, para manter a coesão grupal. Aparece, então, uma cerimônia ou festividade que oportuniza o esvaziamento dos conflitos e, consequentemente, a sustentação das instituições e da consistência cultural.
Mais ou menos de ano em ano, as tribos do Alto-Xingu realizam a festa chamada “Iamaricumã”, onde é revivido o conflito entre os sexos em nível dramático.
Nesse dia, as mulheres assumem os papeis masculinos, enfeitam-se com adornos tais como cocares, braçadeiras, colares, pintam o corpo da maneira como fazem os homens e tomam conta da aldeia. é a festa das mulheres. Elas tocam flauta, dançam, fazem pouco dos homens, trocam e aceitam desafios para lutas corporais. Esse cerimonial parece ser reminiscência de antigas experiências de matriarcado, conforme narram mitos da região.
A troca de papéis oportuniza a vivência de sentimentos reprimidos de auto-afirmação e auto-valorizacão dentro de um clima de liberdade e possibilita às mulheres viverem papeis não permitidos pela cultura, trazendo à ação aspectos profundos de sua personalidade, de maneira explícita, em campo relaxado, isto é, com a aprovação do grupo, que em outras circunstâncias não o permitiria.
É importante salientar, entretanto, que nessa troca de papéis não há uma reciprocidade, pois os homens desempenham os papéis femininos apenas em sua parte passiva, aceitando a situação, mas não os assumindo quanto a tarefas e expectativas de ação. é evidente que os homens, no caso, possuem menos elementos reprimidos; por isso a festa é das mulheres e o maior proveito é colhido por elas, que possuem maior carga de aspectos pessoais a serem vividos e integrados. Após o período de aquecimento, representado pelos preparativos, pinturas e adornos, a dramatização do conflito latente pela troca de papéis envolve a liberação da espontaneidade, através do envolvimento total das participantes na criação dos papéis propostos.
Segundo Moreno. “é muito importante a troca de papéis para uma terapia recíproca eficaz. A troca de papéis é a crise de encontro entre o “Eu e o Tu”, em encontrar-se. é o ponto culminante que completa o sentido de unidade, de identidade e de “pertencer” a um grupo”. Ainda: “No sistema de experiências inconscientes comuns, extensivo às relações interpessoais do grupo, encontramos uma razão para a significação e eficácia de troca de papéis e de outras técnicas psicodramáticas. São os elementos naturais, adequados para explorar esses estados inconscientes comuns.” (1. pág. 76).
“Trata-se de representar os papéis alheios, com os quais se esteve vivendo e interatuando, manifestando o tipo de vínculo percebido, com deformação ou não". (4. pág. 29).
O resultado da dramatização deveria ser a integração, através da vivência de sentimentos de poder e de auto-valorização, de elementos de personalidade dissociados pela ação de pressões culturais. Neste sentido, Moreno afirma que “a catarsis é engendrada por uma visão de um novo universo e pela possibilidade de um novo crescimento”. (5, pág. 39), no que é secundado por Bermudez, que diz: “um dos índices de aferição dos efeitos do tratamento consiste na aparição de novas inquietudes relacionadas com as potencialidades pessoais não desenvolvidas.” (4, pág. 52).
O que se nota, entretanto, no caso, é que parece não ter havido uma catarse de integração, pois não houve mudança ou um crescimento do grupo envolvido na representação. Se, por um lado, a ação dramática possibilitou uma intensificação das relações interpessoais, que poderá até mesmo atingir uma função psicoprofilática na dinâmica futura do grupo em questão, a totalidade da dramatização ocasionou apenas ab-reação e desafogo de emoções, a nível superficial.
“A mobilização do material não basta para curar: é necessário que o mesmo seja canalizado com vistas à Catarse de Integração. (4, pág. 49-50). O resultado depende da elaboração e “insight”, por parte dos protagonistas, das experiências vividas. Talvez por não ter havido reciprocidade na troca de papéis, não foi atingido um nível vivencial terapêutico, que possibilitasse transformação. Não houve a elaboração dos conflitos e a solução permaneceu num plano de descarga catártica das tensões acumuladas.
Comparando os dois rituais descritos, o primeiro se evidencia como mais completo, pois oportunizou integração e mudança, enquanto que este último, ainda que tendo, intuitiva e acertadamente, buscado um caminho dramático de solução pela ação, não conseguiu atingir um resultado totalmente satisfatório. é interessante ressaltar-se que, no caso de conflito intertribal, a mudança é necessária para a sobrevivência da cultura, enquanto que, no conflito intratribal em relação aos papéis femininos e masculinos, a sobrevivência e coerência da cultura depende, ao contrario, de uma permanência da estrutura social. Daí, talvez, o interesse grupal inconsciente de apenas esvaziar o conflito, sem oportunizar uma Catarse de Integração, que traria consigo uma modificação de conseqüências imprevisíveis e, por isso mesmo, muito ansiogênica. Em ambos os casos, foi encontrado o mundo da representação dramática como resposta às necessidades sociais e individuais de equilíbrio, coesão e integração.
Ainda que estacionados no tempo e no espaço, repetindo hoje as técnicas tribais de mil anos atrás, os índios brasileiros muito podem ensinar à nossa sofrida e tumultuada sociedade, quanto ao relacionamento interpessoal e comportamento do homem dentro de sua sociedade.
O índio em sua tribo é um ser humano completo, estável e tranqüilo. Enquanto culturalmente adaptado e a salvo da desagregação ideológica, encontrou na ação, na espontaneidade e na vivência comunitária condições de enfrentar a vida e suas dificuldades. Condições estas que o conduziram a técnicas de representação dramática dos conflitos da comunidade.
- Referências Bibliográficas:
- MORENO, J. L.. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1974.
- VILLAS BOAS, Orlando e Cláudio. Xingu, os índios e seus mitos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.
- RIBEIRO, Darcy. 0s índios e a Civilização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970.
- BERMUDEZ, J. C. Rojas. Introdução ao Psicodrama. São Paulo: Ed. Mestre, 1970.
- MORENO. J. L.. Psicodrama. Buenos Aires: Ediciones Hormé, 1914.
PSICODRAMA NO COMBATE AO STRESS
Marta Echenique
O stress é uma reação de adaptação ao meio. O organismo busca o equilíbrio por um impulso natural e, quando não consegue, faz um esforço extra para recuperá-lo. Em certa medida, o stress pode ser até benéfico, pois estimula a atenção ao meio ambiente e a prontidão nas respostas. No entanto, quando esse esforço supera o limite que o indivíduo pode suportar e quando os estímulos estressantes são contínuos e de longa duração, ele pode provocar as mais diversas doenças. Dessa forma, o corpo emite sinais de que mudanças devem ser feitas.
O stress pode ocorrer como uma resposta adaptativa a estímulos externos desagradáveis, intensos e súbitos – situações traumáticas, acidentes, perda de um ente querido, roubos, perda do emprego, perda da liberdade – ou até mesmo devido a acontecimentos positivos que impliquem em uma mudança brusca na vida de uma pessoa – tais como ficar rico de repente, casar-se, mudar de país, férias prolongadas com a família, etc. Isto significa que fatores ruins e bons podem ocasionar o stress, uma vez que tiram o indivíduo de seu ritmo natural, forçando-o a adaptar-se a novas situações.
Pessoas com estruturas psíquicas diferentes terão respostas diferentes. Ainda que submetidas às mesmas circunstâncias, podem ter reações bastante distintas, podendo uma desencadear o stress e a outra, não. Neste caso, as variáveis são fatores internos que levam a reações mais ou menos intensas e com diferentes graus de adequação.
Às vezes, isoladamente os estímulos não são excessivamente fortes ou intensos, mas várias pequenas pressões se acumulam e sobrecarregam o organismo: problemas financeiros, profissionais, familiares, dificuldades com chefes e colegas, situações de vida, doenças, acidentes, correria, insegurança, trânsito difícil, etc. A aceleração das mudanças do mundo atual exige adaptações e malabarismos em todos os setores da vida e é bastante difícil manter-se equilibrado num mundo cada vez mais desequilibrado.
Nas organizações de trabalho, o grande desafio é a conciliação entre as necessidades operativas e funcionais do mundo dos negócios e a busca de realização pessoal a partir de desejos e sonhos individuais. Conciliação entre a saúde de empresa e a saúde dos indivíduos. Por exemplo, a situação de stress se instala em funcionários requisitados além de seus limites para que as suas empresas sejam cada vez mais competitivas no mercado. Este fator é um constante gerador de esforço muito grande, que leva ao stress.
Nem sempre as pessoas têm consciência da medida em que estão se violentando para se inserir no mercado de trabalho ou da existência de conflitos de toda a ordem que dão origem a stress, tanto a nível individual como grupal, e em que medida fatores coletivos e supra-individuais estão envolvidos.
As contradições não esclarecidas desgastam e desviam os propósitos mais autênticos, ao passo que a percepção dos conflitos, um claro discernimento dos valores envolvidos e a organização de prioridades, a partir da tomada de consciência que distingue o que é importante do que é irrelevante, possibilita escolhas coerentes e uma vida saudável.
O resgate do humano passa por uma ampliação da consciência e pela mobilização dos indivíduos para vivenciarem a realidade a partir do reconhecimento dos conflitos e das diferenças, bem como pela percepção e valorização dos espaços possíveis de ação transformadora.
O Psicodrama oferece uma efetiva possibilidade de lidar com o stress. Seu criador, Jacob Levi Moreno relacionava-se com crianças e adultos, estimulando-os a descobrirem novas formas de estar no mundo.
Novas formas de estar no mundo – isso é o que todos estamos buscando. Formas de lidar com as diferenças e com os conflitos. Formas de valorizar os recursos humanos e os da natureza. Formas de sermos coerentes com nossos ideais e respeitosos em relação aos dos outros. Formas de sermos responsáveis e produtivos e, ao mesmo tempo, fiéis à nossa verdade interior e aos nossos sonhos. Formas de permanecermos humanos num mundo que nos pressiona em direção à maquinização.
Considerando o ser humano um ser em relação e trabalhando basicamente com os vínculos e as relações interpessoais, o Psicodrama oferece uma boa resposta a essas necessidades.
A experiência psicodramática focaliza o indivíduo como centro de uma rede onde os diferentes papéis que exerce na vida podem e devem ser expressos em harmonia com o contexto em que está inserido, o que permite encontrar o equilíbrio entre as solicitações dos grupos e das organizações e as necessidades individuais de auto-desenvolvimento e realização.
A integração de conteúdos psíquicos e o desenvolvimento de atitudes coerentes e pró-ativas em relação às exigências e expectativas externas promovem sintonia entre o mundo interno e os projetos profissionais e permitem a expansão da realidade subjetiva e a fácil concretização de metas.
Em um ambiente de aceitação e segurança, ocorrem situações que permitem um crescimento gradativo do fluxo da espontaneidade e potencializam a autoconsciência. O sujeito passa a identificar seus desejos, bem como suas frustrações, a experimentar um maior sentido de quem realmente é e do que realmente quer, ao mesmo tempo em que desenvolve uma estrutura de recursos capaz de responder adequadamente às situações novas e aos compromissos assumidos, sem violação de seus valores essenciais.
O discurso compartilhado e a troca de experiências promovem formas mais adequadas de relacionamento, reforçam a identidade dos participantes e levam à co-criação de soluções operativas para responder às circunstâncias externas, expandindo os recursos disponíveis de cada indivíduo e dos grupos.
REFLEXÃO SOBRE A GÊNESE DA VIOLÊNCIA
Marta Echenique
INTRODUÇÃO
A violência está cada vez mais presente em nosso dia a dia.
Muito além dos delitos que se convencionou chamar de violência urbana - assassinatos, sequestros, roubos e outros tipos de crime contra a pessoa ou contra o patrimônio - com os quais nos assustamos e muito nos preocupamos, a violência abrange comportamentos tais como desrespeito sistemático às normas de conduta social estabelecidas pelos códigos legais ou pelos costumes, malversação do dinheiro público, corrupção, incompetência administrativa, imperícia profissional, infrações de trânsito, ocupação indevida de espaços públicos e privados, negligência causadora de acidentes, desrespeito ao consumidor e ao cidadão. Estes comportamentos estão tão banalizados e a eles estamos tão acostumados que não nos damos conta do quanto enfraquecem o tecido social, prejudicam as relações, corroem a qualidade de vida das pessoas.
É violência todo o tipo de descriminação, preconceito e exclusão social. É violência tudo que atropela os direitos humanos, tudo que afasta o homem da realização plena de sua humanidade, tudo que o priva da possibilidade de viver como um ser social e solidário.
Grande ênfase tem sido dada necessidade de aprimorar políticas de segurança pública. Sem diminuir a importância destas reivindicações e levando em conta que a abordagem da violência envolve, necessariamente, aspectos sociais e psicológicos, este trabalho focaliza alguns aspectos da construção da identidade, através dos quais a violência se instala e se desenvolve, com vistas a determinar pontos de possível intervenção psico-social.
REFLEXÃO
A formação de sociedade brasileira foi, historicamente, violenta. A exclusão social e política, a dominação e as desigualdades econômicas, sociais e culturais, que têm origem já no início da colonização, são formas de violência. Toda prática e toda idéia que reduza um sujeito à condição de objeto, que viole alguém interna ou externamente é violência e, neste sentido, somos todos vítimas e agentes da violência, em grandes e pequenas coisas do cotidiano.
No entanto, vivemos sob mito da não-violência, isto é, nos consideramos um povo cordial, generoso, alegre, solidário, que desconhece o racismo e respeita as diferenças étnicas, religiosas e políticas.
Não nos percebemos como um povo violento, porque a violência estrutural e institucional sempre esteve presente, tão natural que quase não nos damos conta. A violência que estranhamos, que nos tira a segurança e a tranquilidade, é aquela que se dirige ao mundo privado e ameaça o nosso cotidiano, rompendo a rede das relações de convivência mantenedoras da estrutura social.
Se há causas sociais que geram violência, também é verdade que o comportamento violento não pode ser atribuído a uma única causa – genética, biológica, social ou psicológica.
Sem querer minimizar a gravidade de nossas questões sociais, observa-se que a pobreza não produz necessariamente violência. Tanto é assim, que regiões extremamente pobres do Nordeste apresentam índices de violência muito menores do que aqueles verificados em áreas como São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes cidades.
A excessiva concentração de pessoas nas grandes metrópoles provoca aumento das tensões, ao mesmo tempo que o enfraquecimento do controle social, quer seja pelo anonimato e impessoalidade das relações, quer seja pela omissão do Poder Público, facilita a ocorrência de condutas anti-sociais que comprometem as condições de vida e de convívio. A violência se instala mais facilmente nas áreas urbanas onde a infra-estrutura de serviços é precária ou insuficiente e há dificuldade em encontrar trabalho. Muitas vezes é praticada por jovens da classe média e, mesmo ente os mais pobres, alguns estudos demonstram que cerca de 90% dos casos de delinquência são provocados por motivações de consumo, não pela necessidade ou pela miséria.
Os fatores de risco podem se reforçar e se influenciar mutuamente e à estrutura sociopolítica somam-se as trocas interpessoais, como elementos determinantes na construção das personalidades violentas.
Em reportagem da revista Veja, de 15 de outubro de 1997, sob o título “Pais ausentes”, a jornalista Flávia Varella relata que elefantes jovens que cresceram longe da família começaram a matar rinocerontes em parques-reservas da áfrica do Sul.
Para evitar a superpopulação, cerca de 1500 filhotes foram retirados do parque Kruger e mandados a outras reservas onde não havia elefantes. Não foram removidas famílias inteiras porque na época não havia equipamento capaz de transportar os adultos.
Os elefantes costumam viver em bandos muito unidos, nos quais os mais velhos ocupam o papel de educadores, em um sistema de hierarquia muito bem definido que coordena e determina constantes interações. Segundo o artigo, sem a orientação e o controle de adultos experientes, os jovens elefantes tornaram-se extremamente agressivos e desenvolveram comportamentos anti-sociais totalmente diferentes das condutas habituais da espécie. Atacavam e matavam, em grupo, seguindo um padrão: derrubavam os rinocerontes, ajoelhando-se sobre seu corpo e nele cravavam as presas, num verdadeiro banho de sangue.
A falta de orientação de elefantes mais velhos provocou danos muito severos no desenvolvimento dos jovens, criando “delinquentes juvenis”, como constatou David Barrit, do Fundo Internacional para o Bem-Estar dos Animais (Ifaw).
O fato mais surpreendente dessa reportagem, no entanto, diz respeito à alteração hormonal verificada nestes animais. Em Pilanesberg, um dos parques para os quais foram transferidos, o processo de maturação se alterou de tal modo que vários elefantes machos tiveram a produção do hormônio testosterona iniciada dez anos mais cedo do que o normal.
Em geral, os elefantes ficam mais agressivos durante os períodos em que há explosão de testosterona, porém os machos mais velhos conseguem colocar os jovens na linha, contendo seus impulsos agressivos. Neste caso, além da antecipação, essa intensificação hormonal, que costuma durar apenas alguns dias, chegou a durar até três meses.
Na tentativa de reparar esta situação, a reportagem conta que foram enviadas fêmeas adultas aos locais de atuação das “gangues”:
“Para tentar compensar o erro inicial, as autoridades estão enviando fêmeas adultas aos locais onde as gangues atuam, especialmente os parques Pilanesberg e Hluhluwe-Umfolozi. Imaginam que as elefantas possam pôr ordem no pedaço, já que as fêmeas têm grande poder disciplinador e costumam desempenhar função organizativa no interior das manadas. Os rinocerontes aguardam ansiosamente a chegada dessas titias.” (VARELLA, 1997, p.91).
Fica evidente, neste relato, a estreita relação entre a herança biológica e a necessidade da presença de um “outro” maduro, para o desenvolvimento pleno do indivíduo. Estes animais estavam privados da relação fundamental de interação com outros seres adultos, capazes de ativar e conduzir seu desenvolvimento dentro das normas de convivência grupal.
Assim também, nos humanos, pesquisas transculturais realizadas por James W. Prescott com 400 sociedades pré-industriais (?) afirmam que experiências sensoriais e afetivas adequadas, durante os períodos iniciais do desenvolvimento, criam indivíduos orientados para a tolerância e para relacionamentos harmoniosos, enquanto que a privação de cuidados e de contato corporal intenso causa distúrbios de conduta e transtornos emocionais, que incluem os comportamentos autista e depressivo, hiper-atividade, perversões sexuais, abuso de drogas, violência e agressão.
As estruturas e os valores sociais modelam as opções individuais. As crenças e atitudes de um grupo social ou de uma cultura, bem como os sistemas não-verbais de significado, os mitos, ritos e metáforas – que dão ordem à experiência e sentido à vida – são constituintes da subjetividade de seus membros. Na oferta de papéis e contra-papéis da Matriz de Identidade, a criança é conduzida a funcionar de determinada maneira, em consonância com as expectativas, os valores, os ideais e os laços sociais de uma comunidade, de um grupo, de uma nação.
A regulação e controle das condutas proporcionam o sentimento de pertencer a uma comunidade, confirmando não só a identidade pessoal, como uma identidade cultural.
Nos tempos de mudanças que estamos vivendo, o rápido avanço científico e tecnológico e o impacto da industrialização, da globalização e dos grandes aglomerados humanos geraram e ainda geram, profundas alterações e até mesmo destruição de antigos referenciais de identidade e de ação.
Novas formas de organização estão se estruturando mais lentamente do que o ritmo das mudanças, ainda sem condições de responder totalmente por suas funções de continência e mediação nas relações sociais e institucionais.
Organizações sócio-emocionais que antes davam certo estão sendo insuficientes para responder às necessidades deste momento. Velhos paradigmas já não estão valendo; hierarquias e estruturas familiares são questionadas, preceitos são negados, modelos são descartados. A rapidez atropela e os meios de comunicação mostram tantas possibilidades, que geram insegurança quanto às escolhas.
O equilíbrio entre permanência e transformação nas estruturas sociais está ligado às relações transgeracionais, na produção e transmissão de valores. A geração adulta transmite aos jovens seus princípios norteadores, os jovens os contestam, buscam novas possibilidades, experimentam alternativas e a revisão daí decorrente promove o avanço social.
Quando esta revisão precisa ser acelerada e os adultos não têm respostas suficientes para as questões levantadas pelo momento histórico e mostram incompetência em criar condições satisfatórias de existência, não são reconhecidos como modelos e os jovens não só questionam, como recusam a influência familiar e a autoridade parental, buscando alternativas que possam proporcionar melhor qualidade de vida. Esta recusa se estende à transmissão de valores e às normas de convivência tradicionais, mesmo àquelas que podem e devem continuar valendo para as novas circunstâncias. Num movimento de auto-afirmação individualista, substituem vínculos familiares por grupos de apoio mútuo, com estrutura menos consistente do que os laços originais, onde buscam novos códigos e rituais que reforçarão a sua identidade e lhes fornecerão normas de conduta.
Como forma de inserção, pertencimento, respeito e confirmação, assumem comportamentos desafiadores valorizados pelo grupo - o sexo precoce, a promiscuidade, as drogas, a velocidade, as transgressões, quando não a agressão, a violência e o crime.
Estatisticamente, observa-se, no mundo inteiro, que os homens são os que recorrem mais frequentemente à violência física. Adolescentes e adultos jovens do sexo masculino são os responsáveis pela maioria dos assassinatos, lesões corporais graves ou violência sexual. São também os maiores usuários de drogas de todo o tipo.
Quando há convulsão social ou mudanças desestabilizadoras, os homens sofrem o maior impacto, porque a construção de sua identidade de gênero depende muito de papéis determinados pela cultura. A sociedade pós-industrial, altamente complexa, não facilita a inserção do jovem na comunidade adulta. Os rituais definidores da masculinidade estão ausentes ou destorcidos e tarefas tradicionais que eram prerrogativas do sexo masculino deixam de sê-lo.
A identidade da mulher é mais estável, depende menos da cultura e da estrutura social. Ela não precisa tornar-se, mas apenas ser. Mesmo em tempos de crise e profundas transformações, a própria biologia lhe fornece um sentido para a existência e a maternidade a define e confirma. Não é o caso, aqui, de discutir as implicações e prejuízos aí envolvidos.
Ao serem privados dos sistemas simbólicos de referências e pautas de comportamentos que confirmem sua dignidade e seu valor para a comunidade, os homens ficam expostos a sentimentos de vergonha e humilhação pessoais, que tendem a ser encobertos pela construção de um "falso self" adulto, agressivo, “bem sucedido” (em qualquer parâmetro que isso seja possível).
O jovem desempregado é mais vulnerável ao ingresso na criminalidade, uma vez que o desemprego ou o subemprego mexem com a sua auto-estima e o fazem pensar em outras formas de conseguir espaço e reconhecimento na sociedade. Com dificuldade para entrar no mercado de trabalho, fortemente estimulado para o consumo, sem modelos consistentes que se contraponham ao que lhe é oferecido (apoio, prestígio, sentimento de pertencer a um grupo, o poder que uma arma representa), torna-se uma presa fácil para a transgressão e até mesmo para o crime organizado.
Impulsos primitivos determinados por fatores biológicos e hormonais (além, naturalmente, dos aspectos psicológicos) provocam nos homens uma intensa busca de auto-afirmação e exercício do poder pessoal; modulados e ritualizados pela cultura, são equilibrados pela empatia com os sentimentos das outras pessoas e pelo sentido comunitário do bem coletivo. Na raiz da incapacidade de solucionar amistosamente os conflitos e controlar impulsos agressivos, encontra-se a ausência deste equilíbrio. Modelos de individualismo competitivo e sucesso a qualquer preço, promovem um generalizado endurecimento e baixa tolerância à frustração – ao menor sinal de contrariedade ficam furiosos e não conseguem medir as consequências de seus atos.
A sociedade brasileira não é uma cultura de valores éticos fortes. Somos o resultado da mistura de muitos povos que, ao deixarem para trás suas terras de origem, deixaram também pautas de conduta e referências culturais, abertos a novas influências.
O esforço de adaptação a novas realidades, relativiza as convicções. Como resultado, a flexibilidade tornou-se um forte traço do povo brasileiro. Não há padrões rigorosos de certo e errado que existem em outras sociedades. Os estímulos sociais são para “subir na vida”, buscar a realização imediata dos desejos, cultivar a eterna juventude, desfrutar a vida sem pensar muito.
Quando os referenciais são tão frágeis e não há uma clara noção de prioridades e do sentido básico da vida, como os pais ajudarão os filhos, na transmissão de valores e aprendizagem das regras de convivência, se eles mesmos não têm clareza a respeito?
O êxodo rural acrescenta mais um elemento neste contexto. Nas comunidades periféricas às grandes cidades, concentram-se adultos impotentes e perplexos, desenraizados de seus valores culturais, que migraram do interior em busca de uma vida melhor e se depararam com uma realidade muito diferente daquela que sonharam. Nessa realidade, suas referências não servem mais, suas competências - apropriadas, úteis e dignificantes no contexto anterior - se esvaziam e sua identidade entra em colapso.
Pessoas desesperançadas, vencidas e sem ideais tendem a ser negligentes; vítimas de violência tendem a ser violentas; abusado torna-se abusador. Maus tratos, abusos e negligência, rupturas e conflitos constantes na família são um ótimo caldo de cultura para a criminalidade.
CONCLUSÕES
Podemos concluir que a ausência de laços familiares fortes, cultivados por contato corporal e cuidados amorosos, aumenta a probabilidade de uma criança desenvolver comportamentos agressivos.
Elemento importante e decisivo no combate à violência é, portanto, uma Matriz de Identidade que possa oferecer relacionamentos iniciais de boa qualidade e que, através de seus preceitos e rituais, possa passar adiante os valores de sua comunidade, orientar e limitar as opções e ajudar os jovens a lidar com a frustração pela tolerância às exigências da realidade, visão de médio e longo prazo e senso de pertencer a um grupo.
A presença de adultos maduros e com capacidade de contenção psíquica, que possam servir de modelos e suporte emocional e assumir as tarefas de tomar conta dos mais novos, preservando o equilíbrio e a estabilidade cultural, através de comportamentos adequados às demandas do momento e às contingências sócio-culturais, é fundamental para a transmissão dos valores humanos de amorosidade e respeito ao outro.
Ainda que a falta de condições mínimas de afeto e de convivência dentro da família possa ocorrer em qualquer modelo familiar e em todas as classes sócio-econômicas, a privação sócio-cultural, em seus aspectos tanto econômicos como psicológicos, dificulta e empobrece sobremaneira as possibilidades das famílias fornecerem uma Matriz de Identidade adequada.
Uma sociedade saudável é aquela que oferece condições sócio-econômicas e culturais para que as famílias possam desempenhar a contento suas tarefas e deveres em relação às crianças.
A busca de soluções para o problema da violência deve contemplar, portanto, ao mesmo tempo, o combate à violência estrutural da sociedade, eliminando a exclusão social e educacional, e a proteção e promoção das funções matrizadoras das famílias na construção das subjetividades. O fim da violência nas ruas começa dentro de casa.
Referências bibliográficas:
- FASSA, B. e ECHENIQUE, M. Poder e Amor – A Micropolítica das Relações. São Paulo: Editora Aleph, 1992.
- MONTAGU, Ashley. Tocar: O significado humano da pele. São Paulo: Summus Editorial, 1998.
- MORENO, J.L.. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1974.
- VARELLA, Flávia. Pais Ausentes. Veja, p.91, 15 de outubro de 1997.
- Citado em MONTAGU, Ashley. Tocar: O significado humano da pele. São Paulo, Summus Editorial, 1998. p. 309.
» Este artigo foi publicado na Revista Brasileira de Psicodrama.
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